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A paixão que gera o crime

Por Fernando Jorge


Antônio Marcos Pimenta Neves, de 63 anos, diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo, matou friamente, em 12 de agosto de 2000, a sua ex-namorada Sandra Gomide, de 32 anos, com dois tiros pelas costas, usando balas Hollow Point, de alto poder de destruição.


O assassino, no jornal dos Mesquitas, promoveu Sandra e triplicou o seu salário. Elevou-o de R$ 1,6 mil para R$ 8,5 mil. Apaixonou-se por ela, mas ele passou a acreditar que a moça o traia com o jornalista equatoriano Jaime Mantilla, diretor-geral do diário Hoy, de Quito. Enciumado, revoltado, Pimenta separou-se de Sandra e demitiu-a.


Há muita semelhança entre o seu crime e o de Moacir Toledo Piza, advogado e jornalista, um dos fundadores de O Estadinho, com Júlio de Mesquita Filho, e depois de O Queixoso. Ele era também redator de O Estado de S. Paulo e colaborou no Jornal do Commercio.


Nascido na cidade de Sorocaba, em 19 de abril de 1891, Moacir exerceu o cargo de delegado de polícia no interior de São Paulo. Panfletário temível e poeta satírico de talento, apaixonou-se pela Nenê Romano, apelido da prostituta Romilda Machiaverini, mulher de extraordinária beleza. Ele começou a nutrir um amor doentio por ela, quando abriu um processo contra a rica fazendeira Maria Eugênia Junqueira Guimarães, que mandara três homens retalhar a navalha o lindo rosto de Nenê.


Após brigar com a prostituta, Moacir tentou fazer as pazes, mas ela o repeliu. Isto aconteceu no dia 25 de outubro de 1923. Os dois estavam em São Paulo, numa esquina da avenida Angélica e no interior do carro de um motorista. Piza carregava um buquê de flores, onde escondia o seu revólver. Conforme o depoimento do motorista, ele insistiu em reatar o romance, e diante da nova recusa, não teve dúvidas, disparou três tiros em Nenê Romano, que morreu na hora. De modo mecânico, o jornalista encostou a arma no seu peito e acionou o gatilho. Todavia, socorrido pelo motorista, ainda sobreviveu durante algumas horas, num hospital do bairro de Higienópolis.


Encontraram no bolso da calça do suicida, de casimira listrada, este soneto de sua lavra:

"Deus! tu que és bom, tu que és consolo e abrigo

De todo coração amargurado,

Como assim podes ver-me desgraçado

Por este amor, que me é como um castigo?

Que hediondo crime, que mortal pecado

Cometi, que me tens por inimigo?

Por que o bem de olvidá-la não consigo,

Eu, que do seu amor ando olvidado?

Por quê? Bem sinto: é que nos céus, sereno,

Só podes compreender o amor divino.

Nunca, nunca provaste o amor terreno,

O amor de uma mulher, que é o teu destino,

E cuja boca é a taça de veneno,

Que faz de um homem justo - um assassino!”

Este soneto foi publicado na página 72 do livro Vespeira, obra póstuma de Moacir Piza, lançada em 1923 e prefaciada por Hilário Tácito, pseudônimo de José Maria de Toledo Malta, autor do romance Madame Pommery.


Sim, há muita semelhança entre o crime de Pimenta Neves e o de Moacir Piza, embora Sandra Gomide não fosse prostituta.


Fernando Jorge é jornalista, escritor, historiador, biógrafo, crítico literário, dicionarista e enciclopedista brasileiro, Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro "O Aleijadinho, sua vida, sua obra, sua época, seu gênio”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora Martins Fontes.

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