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China: mercado de frangos brasileiros

Por Heródoto Barbeiro

Crédito: Rodrigo Reyes Marín / Scopio

China e Estados Unidos não se bicam. A disputa pelo protagonismo mundial não está mais restrita ao Ocidente. Americanos não esquecem que Mao Zedong rotulou a potência nuclear americana como um tigre de papel. Ou seja, um aviso aos demais países que não tenham receio da hegemonia americana, porque esta é frágil como a fantasia. O mercado chinês ainda não está totalmente aberto ao comércio e mesmo aos investidores internacionais. A presença do Estado é muito forte e há predominância das empresas estatais. As mudanças acontecidas no Império do Meio ainda não foram suficientemente avaliadas e entendidas pelos especialistas ocidentais em sinologia. Afinal, a China é uma ditadura comunista, governada por uma burocracia política que é emanada do Partido Comunista Chinês. Não há liberdade de imprensa, nem de expressão. A justificativa oficial é que a população ainda não se livrou da herança medieval e da dominação dos senhores da guerra. Ela quer se apresentar como algo novo, que tem o seu próprio caminho, que rompeu com o comunismo de origem soviética e tem seu próprio líder e cartilha, O Livro Vermelho.


Um mercado de mais de um bilhão de seres humanos não é desprezível. Se cada chinês tomasse uma xícara de café, todos os dias, pela manhã, o consumo seria suficiente para esgotar toda a produção brasileira do produto. O mesmo, se comesse um frango. Aproximar-se da China econômica e politicamente dá ao Brasil ampla possibilidade de ganhos comerciais, balança comercial favorável e importação de produtos a baixo preço. Com isso as camadas mais pobres teriam acesso ao consumo, e ajudaria a controlar a inflação que teima em não baixar. Porém, isso tem reflexos diplomáticos. Essa aproximação, especialmente com a visita de um político brasileiro importante à China, liderando uma delegação de senadores, deputados e empresários, traz desconforto com a potência hegemônica das Américas, os Estados Unidos.


O Brasil tem ou não uma política externa independente? Segundo o presidente da República esta é uma das metas do seu governo. Uma aproximação com os países da Europa Oriental e da Ásia. O presidente dá mostras que não se curva às pressões americanas, prova disso é que condecora um ícone da revolução cubana, Che Guevara. Diante dessa nova postura, o incumbido de concretizar a aproximação com os chineses é o vice-presidente da República, João Goulart. É o primeiro político brasileiro a ser recebido pelo Velho Timoneiro e parte da burocracia do PC. A proposta do governo Jânio/Jango é abrir o diálogo com todos, ainda que isso ocorra com muito atraso – afinal, Brasil e China não têm relações diplomáticas, rompidas em plena Guerra Fria. A missão brasileira é autorizada pelo Congresso Nacional, e Jango fez um discurso em que acena com a aproximação entre os dois países, ainda que isso só tenha se concretizado em 1974, no governo de Ernesto Geisel. É verdade que a presença da delegação brasileira tem um caráter simbólico, mas importante, uma vez que internamente os partidos de oposição são contra. Jango marca um ponto importante em sua carreira, e é surpreendido, na viagem de volta, em Cingapura, quando recebe a notícia de que Jânio renunciou. Resta voltar e assumir a presidência, em uma República neoparlamentar.


Heródoto Barbeiro é jornalista do R7, Record News e da Nova Brasil FM. Também é professor, Mestre em História pela USP e advogado pela FMU. Já passou pela TV Cultura, pela CBN e pela Globo. Você pode ver mais em www.herodoto.com.br

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