Buscar
  • Redação JBA

Que proposta indecente!

Por Fernando Jorge

Cena do filme "Proposta Indecente", que apesar das críticasarrecadou mais de US$ 260 milhões em todo mundo (Imagem: Divulgação)

A repórter Célia Chaim informou, na sua seção do “Jornal do Brasil”, que o filme "Proposta indecente" virou um tema de pesquisa entre os alunos da área de pedagogia da Universidade Estadual de Campinas. O resultado é impressionante: 63,5% dos rapazes, se fossem casados, deixariam as suas esposas ter relações sexuais com um homem muito rico, ao longo de uma noite, em troca de grande soma de dinheiro.


Esses moços, portanto, "alugariam" o corpo das consortes. Honra, moral, família, dignidade, para eles, são palavras ocas, desprovidas de sentido. Tudo isto, de acordo com os seus pontos de vista, é bobagem, não vale um caracol, pois aceitam tranquilamente que as suas esposas se transformem em prostitutas. Adotam esta filosofia: mais do que o brio, a honra, vale o dinheiro no bolso, a grana, o dólar, o jabaculê, os caraminguás...


E nós, os "moralistas", somos os retrógrados, os "quadradões", os indivíduos anacrônicos, parados no tempo.


Tal pesquisa revela a podridão moral de milhares de jovens brasileiros. Exibindo essa mentalidade, essa sem-vergonhice, eles vão ser os futuros médicos canalhas, advogados canalhas, engenheiros canalhas, professores canalhas e políticos canalhas. Se vendem as esposas, também poderão vender, mais tarde, a própria pátria a qualquer potência estrangeira. Pobre Brasil! O que o nosso país deve esperar do amanhã, se uma parte de sua juventude universitária já está podre?


De onde veio essa putrefação moral? No meu entender, ela brotou, como planta peçonhenta, da lama de uma sociedade americanalhada, isto é, da imundice de uma sociedade onde o Deus é o Dólar, símbolo do poder econômico e dos prazeres materiais.


Rivarol afirmou que Mirabeau, o insigne orador da época da Revolução Francesa, "era capaz de tudo por dinheiro, até de praticar uma boa ação". Isto se aplica, de igual modo, a esses rapazes da Unicamp. Quando fizerem algo digno de louvor, será talvez por interesse vil, sórdido, nauseabundo...


Consoante o pensamento de Sócrates, todas as coisas devem convergir para a moral, concorrer para a moral e ser subordinadas à moral. Mas segundo esses jovens universitários, dispostos a entregar as esposas a fulanos muitos ricos, o centro do nosso universo é o dinheiro, ele é que é o astro-rei e não o Sol.


Na opinião dos amorais, sem dúvida, nada é imoral. Imagine, amigo leitor, a minha conversa com um jovem canalha. Faça de conta que não inventei o diálogo. Eu diria a ele:


-A sociedade precisa ter as suas leis e os cidadãos uma respeitável linha de conduta.


-Qual é, ô meu? Sai dessa, pô! Tudo é normal, cara!


-E se eu estuprar a minha irmã, é normal?


-Tudo é normal, cara!


-E se eu matar a minha mãe?


-Tudo é normal, cara!


-E se eu asfixiar uma garotinha de cinco anos, como fez o "Monstro de Minas", e depois resolver queimá-la, transformando-a num monte de cinzas, isto é normal?


-Tudo é normal cara!


Aí, neste instante, eu avançaria em cima do jovem canalha e lhe daria um soco bem violento. Ele gritaria, estirado no solo, com o rosto coberto de sangue e os olhos esbugalhados, repletos de espanto:


-Ò cara, tá bêbado? Você me amassou o nariz! Você me arrancou vários dentes! Por que fez isto, cara? Você tá baratinado?


Então eu responderia, sorrindo:


-Tudo é normal, cara!


Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

5 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo