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O menino que amava duas meninas

Por Fernando Jorge

Imagem: Freepik

O meu querido amigo Ronaldo Côrtes estava certo quando me disse:


– Após a publicação do seu romance autobiográfico Eu amo os dois, você vai receber muitas cartas das leitoras dessa obra. Elas vão expor, nas cartas, episódios de amores duplos, ocorridos com outras pessoas e com as próprias.


Eu disse ao Ronaldo, naquela ocasião:


– Acho que vou consultar você, todas às vezes, se receber essas cartas, porque Ronaldo Cortês é fino psicólogo, superior a mim, como analista de almas...


Ele riu e respondeu:


– Pode contar com a minha ajuda, embora você esteja exagerando.


Pois bem, acabo de receber uma carta que me deu a vontade de pedir ao Ronaldo a sua valiosa opinião. Reproduzo aqui um trecho da missiva:


“Conclui a leitura do seu romance Eu amo os dois, de cunho autobiográfico, pois nele o senhor é o personagem Rodrigo, segundo declarou na televisão. Eu me senti perturbada. Explico o motivo dessa minha reação.”


A leitora, cujo nome pediu para não ser revelado, prosseguiu assim:


“Tenho 25 anos, sou de uma família rica, e moro numa ampla e bela casa do bairro do Morumbi. Quando eu estava com 14 anos, eu e a minha irmã, de 12 anos, fomos colegas, na escola, de um lindo menino louro de treze anos. Ele sempre nos procurava e chegamos, várias vezes, eu, a minha irmã e ele, a ir juntos ao cinema.”


Em seguida a autora da carta explica que o menino, beijando as duas, ela e a irmã, confessou amá-las de maneira igual e queria, no futuro, casar com ambas, simultaneamente. A autora da carta reagiu:


– Você é louco? Eu e a minha irmã gostamos muito de você, porém só poderia se casar com uma de nós.

Aí o menino respondeu, sem se atrapalhar:


– Se eu gosto de vocês duas, de modo igual, tenho o direito de casar com vocês. Li num livro que isto se chama biga... biga... uma palavra que começa com biga.


A autora da carta esclareceu:


– Esta palavra é bigamia, menino.


Os três consultaram um dicionário e leram isto:


Bígamo, quem é casado ao mesmo tempo com duas pessoas.”


O lindo menino louro, conta a missivista, depois de ler isto no dicionário, e beijando as duas irmãs, entusiasmou-se:


“– Quero me casar com vocês! Quero ser bí-ga-mo! Bí-ga-mo!”


Palavras finais da autora da carta:


“Escritor Fernando Jorge, achei que o menino havia ficado louco, mas eu a minha irmã, hoje acredito, gostávamos tanto dele que naquela época talvez aceitaríamos a tal bigamia. Qual é a sua opinião, escritor?”

Confesso, eu que descrevi um amor duplo verdadeiro no meu romance Eu amo os dois, não sou capaz de responder. Quem seria capaz: o meu amigo Ronaldo Côrtes, psicólogo sutil, admirável conhecedor dos sentimentos humanos.


Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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