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Muita gente, com cara bonita, tem alma feia, e muita gente, com cara feia, tem alma bonita

Por Fernando Jorge

Imagem: Sammy Willians / Unsplash

Julgo o povo, inúmeras vezes, mais sábio que os maiores sábios. Sua filosofia nasce da soma dos mais variados conhecimentos. Na feitura de um provérbio ou de um dito sentencioso colaboraram multidões tragadas pela voragem do tempo. Quanta profundeza deparamos num rifão! Uma frase popular não é o produto espontâneo de um repente feliz. Custou amarguras, decepções, sendo argamassada com diversas e sofridas experiências. Daí o cunho verdadeiro desses adágios que correm mundo, de autores desconhecidos, mas tão expressivos, tão lapidares, como os melhores aforismos de Pascal, La Roche Foucauld e Anatole France.


Assevera o povo, com instintiva sabedoria, “que quem vê cara não vê coração.”


De fato, nos enganamos, quando pretendemos avaliar o nosso semelhante pela sua fisionomia.


As aparências iludem, escondem a realidade. A natureza quis brincar com o homem, oferecendo-lhe aspectos contraditórios, perturbadores, demonstrando, assim, as deficiências da nossa acuidade.


Se os sentidos estão sujeitos a tantas falhas, que dizer, então, do nosso cérebro?


Todo indivíduo, por mais tolerante, tem sempre encaixadas na cabeça, de forma renitente, algumas ideias convencionais, originadas de uma excessiva padronização da vida coletiva.


São essas ideias preconcebidas, milhares e milhares de vezes divulgadas, que prejudicam a nossa visão particular das coisas e a capacidade de penetração psicológica. Por exemplo: em geral achamos que todo fulano com rosto assustador deve ser perigoso. Um tipo mal-encarado, de cicatriz na face, pode nos arrepiar o cabelo. Qual o motivo? É que o cinema e os romances policiais costumam mostrar os bandidos dessa maneira...


Existe gente linda, de corpo sedutor, que é ruim como o capeta, e gente feia, horrível mesmo, que é boa como a alma protetora dos anjos.



Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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