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Está na 7ª edição do meu livro Cale a boca, jornalista!

Por Fernando Jorge


O assassinato da jornalista Sandra Gomide em Ibiúna, cometido por Antônio Pimenta Neves, seu colega de profissão, no dia 20 de agosto de 2000, fez os profissionais da Imprensa adquirirem um outro aspecto, perante os leitores de jornais e revistas. Antes do crime do ex-diretor de redação do jornal O Estado de S.Paulo, os jornalistas, para esses leitores, tinham a imagem de pessoas algo frias, essencialmente práticas, pois a nossa imprensa atual, ao contrário do que ocorria com a imprensa brasileira da época de Rui Barbosa e José do Patrocínio, caracteriza-se pelo apego à objetividade e não à passionalidade.


Havia tanta passionalidade na imprensa brasileira que em 1906, na praia do Leblon do Rio de Janeiro, no decorrer de um duelo, o jornalista Edmundo Bittencourt, diretor do Correio da Manhã, trocou tiros de pistola com o senador Pinheiro Machado. Certeiro balázio do senador atingiu o jornalista na fossa ilíaca externa, sem lhe roubar a vida.


Em 1913, por causa de uma crítica do jornalista Gilberto Amado ao livro Elogios e símbolos, do também jornalista Lindolfo Collor, o sergipano foi atacado a bengaladas pelo Lindolfo, avô do futuro presidente Fernando Collor. O fato ocorreu na rua do Ouvidor, na hora de maior movimento. Gilberto Amado sacou o seu revólver e desfechou vários tiros, mas não feriu e nem matou o outro jornalista. A rua, naquele local, ficou coberta de fumaça, enquanto os transeuntes, apavorados, corriam em todas as direções...


A passionalidade dos nossos jornalistas, no tempo da República Velha, aparecia nos seus textos e nos seus atos pessoais. Lembrar esses episódios é mostrar uma transformação que alterou a fisionomia da nossa imprensa. E as causas dessa metamorfose ainda não foram analisadas pelos sociólogos e historiadores.


Quando o jornalista gaúcho Paulo Germano Hasslocher publicou no semanário ABC um violento ataque contra o Antônio Torres, seu colega de imprensa, este revidou imediatamente, num artigo que saiu no Correio da Manhã. Torres desceu o cacete no gaúcho, no ABC e em todos os redatores do semanário, pois fora acusado de ter conseguido entrar de mão beijada para a carreira diplomática, graças à proteção especial do governo.


Homem impetuoso, bravateiro, Germano Hasslocher, apelidado de O Golias das campinas do Sul, respondeu com igual virulência. Torres voltou à carga, arrasando o adversário num artigo publicado na Gazeta de Notícias.


Os dois, em breve, chegaram a esta firme conclusão; precisavam encerrar o desacordo num duelo à espada.


Como narrei no meu livro Cale a boca, jornalista! (Editora Novo Século, 5ª edição), ambos, num dia de fevereiro de 1919, à meia-noite, acompanhados pelos seus padrinhos, dirigiram-se a um lugar deserto do Rio de Janeiro, perto do Morro da Viúva, no começo da praia de Botafogo. Ali empunharam as armas. Antônio Torres frequentara algumas aulas de esgrima, de um professor cujas lições eram dadas no edifício do Jornal do Brasil, e Hasslocher fizera o mesmo, ouvindo os conselhos do tal professor.


Firmou-se uma cláusula: o duelo terminaria ao primeiro sinal de sangue. Logo as espadas se cruzaram. De súbito, a lâmina da espada de Hasslocher bateu levemente na testa de Antônio Torres. Isto bastou para o duelo ser suspenso. Aplicaram um curativo na testa arranhada e depois outro, numa farmácia da rua do Catete. Em seguida, como narra Gastão Cruls no livro sobre Antônio Torres, o ex-padre de Diamantina foi tomar champanhe, com os seus eficientes padrinhos, no seleto Clube dos Políticos...


Voltarei a este assunto, pois ele é muito interessante.


Fernando Jorge é jornalista, escritor, historiador, biógrafo, crítico literário, dicionarista e enciclopedista brasileiro, Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Cale a boca, jornalista!”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora Novo Século.

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