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Cultura do cancelamento e o mundo digital

Da Redação

Foto: Freepik I Arte: Redação JBA

A chamada "cultura do cancelamento" - tem crescido cada vez mais entre as gerações millenials e Gen-Z, especialmente nas redes sociais. E nesse começo de 2021, o assunto está em destaque em um dos reality shows mais assistidos no país, o Big Brother Brasil.


Mas o que é cancelamento?


O cancelamento já é utilizado há anos por movimentos sociais para chamar a atenção para causas sociais e tentar promover mudanças. A ideia era pressionar marcas, empresas e políticos a tomarem atitudes em nome destas causas.


É uma prática que se inspira nos movimentos por direitos civis de negros, nos anos 1960, nos EUA: o boicote de empresas, restaurantes, lojas e concessões de transporte público era uma forma de pressão contra as leis de segregação racial norte-americanas. A ideia era atacar onde mais doía: no bolso dos empresários.


Contudo, na chamada cultura do cancelamento, o boicote deixou de ser direcionado às empresas (restaurantes, ônibus) e de ter um objetivo mais definido (mudar a lei, por exemplo), para se voltar contra indivíduos em nome de bandeiras e valores mais gerais.


A cultura do cancelamento tornou-se uma reação contra comportamentos inaceitáveis e ofensivos, por parte de celebridades, em que os seguidores e demais internautas, param de seguir ou apoiar a celebridade em questão. Porém, em determinadas situações pode ser também uma reação intensamente narcísica e violenta, contra atos percebidos como um ataque à forma como determinados grupos veem e entendem o mundo.


Existem casos e casos, e a grande parte deles acontece por conflitos de opiniões e pensamentos. Pode haver um "certo ou errado", ou não: longe disso. No ano passado, o cancelamento ocorreu com a influenciadora digital Gabriela Pugliesi que, de fato, teve uma atitude irresponsável por fazer uma festa e receber pessoas em sua casa, mesmo após ter sido infectada pelo novo coronavírus (e curada) e o mundo estar em isolamento social devido a uma grave pandemia.


Outro caso que aconteceu em 2020 foi de uma jovem estrangeira que mora aqui no Brasil, que fez um vídeo zombando de algumas tradições, como comer arroz e feijão todos os dias, ou ainda escovar os dentes após as refeições. Esses comentários inofensivos se tornaram uma dor de cabeça para a jovem, que foi xingada com palavras baixas e ameaças. Em muitos casos parecidos, as pessoas acabam recebendo ameaças de morte, entre outras coisas prejudiciais à saúde mental.


Ser cancelado pode ser muito doloroso. É duro. É um julgamento. É impiedoso. Ele não escuta o outro lado da história. Não tolera diferenças de opinião. Rejeita o compromisso. E o pior de tudo é que não permite a reconciliação.


Segundo a psicóloga Célia Siqueira, não ter aprovação social ou ser cancelado de uma hora para outra, resulta em bullying virtual em algumas situações e consequentemente, o surgimento de traumas e até em casos graves, o suicídio. O medo do cancelamento faz com que cada vez mais, as pessoas transmitam através da internet uma vida perfeita e de felicidade constante.


“A necessidade excessiva de atenção, expectativa da grande quantidade de curtidas nas fotos e visualizações em vídeos, muitas vezes é resultado de carência afetiva. Algumas pessoas, por não alcançar seus objetos nas redes ou por receber críticas, podem desencadear fobias bem sérias, como a síndrome do pânico,” diz Célia.


O cancelamento não ocorre somente com pessoas famosas, muitas vezes com desconhecidos que viralizam nas redes sociais por alguma atitude questionável e, em decorrência disso, perdem emprego, amigos, são humilhadas e excluídas até nos ambientes que antes frequentavam. Hoje, qualquer um pode ser vítima de ataques virtuais com consequências muito reais para sua vida.


Embora a cultura do cancelamento possa ser baseada na nobre intenção de rejeitar o mau comportamento, ela mesma é um mau comportamento. É uma forma de bullying. É um jogo de poder. Não trata a pessoa cancelada como um ser humano, mas como um objeto que pode ser descartado. Como não permite diferenças de opinião e não permite que a pessoa cancelada se defenda - ou mesmo que peça desculpas ou faça reparações - cancelar a cultura é a pior forma de intolerância. Ela não ouvirá nem mesmo outro ponto de vista, muito menos o ouvirá e o considerará.


Para o professor Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia, os “cancelamentos digitais” são possíveis porque há um grupo amplo de pessoas unidas por um sentimento de pertencimento recíproco, “motivados pela percepção de que todos estão identificados entre si por algum aspecto essencial de sua própria persona social”, que estabelece uma dinâmica de nós contra eles.


Cancelar a cultura não é necessariamente tudo ruim. Dar às pessoas o poder de responsabilizar alguém trazendo suas ações desfavoráveis à frente para que não causem mais danos, é e tem sido muito benéfico em muitos casos. Com moderação, pode continuar a fazer isso.


Em entrevista ao CanalTech, Diogo Soares, bacharel em ciências sociais pela USP, comentou que ainda há muito a ser feito em relação a esta nova cultura do cancelamento, criando regras de forma coletiva. O bacharel diz que é exatamente isso que essa nova tendência cria: a sensação de que não existe uma regra para todo mundo, e que quem falar mais alto sai ganhando, dificultando a convivência social. De certa forma, a cultura do cancelamento, por estar em um ambiente público, traz a oportunidade de pessoas entenderem as questões graves relacionadas ao racismo, entre outros preconceitos, nunca debatidas no offline.

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