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  • Redação JBA

A mulher pode amar dois homens ao mesmo tempo?

Por Fernando Jorge


O meu romance Eu amo os dois, recentemente lançado pela editora Novo Século, prova que sim, que a mulher pode amar dois homens de maneira igual, porém saliento: não são todas, só algumas, em circunstâncias especiais.


Afirmo isto porque o meu romance Eu amo os dois é autobiográfico. Narro uma história de amor verdadeira, na qual sou o personagem Rodrigo. Tive paixão por uma jovem muito bonita, que me amou sinceramente e também amou sinceramente o seu primo de primeiro grau, um rapaz alto, belo, forte. E eu formava contraste com ele, pois era feio (e ainda sou feio), um moço magrinho, desprovido de força física... O leitor indagará: mas como esta história pôde acontecer?


Explico e não complico. Passo a reproduzir um trecho deste romance, escrito em forma de carta, enviada a uma psicóloga, pela minha amada. O romance está baseado no diário escrito por ela. Aqui vai o trecho:


“Não é fácil expor aqui a minha história, preciso controlar a emoção.


Minha mãe, Euterpe Schultz Barreto, é alemã, e foi linda na mocidade, parecia a sueca Greta Garbo no filme A dama das camélias. Casou-se com o brasileiro Pedro Augusto Barreto, médico veterinário, meu pai, homem bondoso, compreensivo, o oposto da esposa dura, enérgica, autoritária, dotada de agudo senso prático. Desde quando eu era menina de oito anos, antes de entrar na adolescência, ela sempre me dizia:


– Namore dois rapazes ao mesmo tempo. Muitas mães orientais dão este conselho às suas filhas, e é ótimo conselho, pois se um rapaz largar você, ficará garantida com o outro. Na vida seja esperta, ponha a cabeça acima do coração e nunca este no lugar da cabeça.


Eu respondia:


– Mas e se só gostar de um?


Ela replicava:


– Será bobagem. Você tem de se defender, a vida não é delicioso bolo de chocolate.”


Resultado: de tanto a mãe aconselhar a filha a namorar sempre dois rapazes, a jovem Elza do romance acabou amando, de modo duplo, o primo e eu, o jovem feio, magrinho. A mãe não parava de repetir:


- Minha filha, namore sempre dois rapazes. Se um escapar, você ficará garantida com o outro.


No meu romance eu fiz a mãe ser de sangue alemão, mas na verdade ela tinha árabe. Antigamente, numa família árabe, se uma filha não procedesse de maneira correta, os árabes não xingavam a filha, xingavam a mãe. Na opinião deles o procedimento da filha dependia dos conselhos da mãe.


Mas agora o amigo leitor perguntará:


- Escritor Fernando Jorge, que prova você tem, capaz de mostrar o amor verdadeiro da moça por sua pessoa?


A prova é o diário que ela deixou, antes de falecer, onde confessa o seu amor duplo por mim e pelo primo.


Eu, apesar de estar apaixonado, larguei-a. Quando me via na rua, em qualquer lugar, ficava com o rosto cheio de lágrimas, porém eu não me aproximava dela. Emagreceu mais de dez quilos. Alguns dos seus parentes me dizem, até hoje:


- Ela morreu consumida pelas saudades que sentia de você.



Também opresso pela saudade, com os olhos umedecidos, concluo esta evocação.


Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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