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Vorte nu Sirvio, purquê eli é santu e ponhô a mão nu meu ombru

Por Fernando Jorge

Imagem: Antonio Cruz/ABr / Wikimedia Commons

A história que vou contar aqui é absolutamente verdadeira, não inventei nada.

Eu era frequentador assíduo da Livraria Teixeira, situada na rua Marconi, número 40, da capital paulista, bem no centro da cidade. Certa manhã o seu gerente, Carlos Cardoso, apresentou-me a uma senhora de chinelos e pano azul amarrado na cabeça:

– Este aqui é o escritor e jornalista Fernando Jorge.

A mulher, arregalando os olhos, quis saber:

– In quem u sinhô vai vortar pra presidenti? Vai vorta no Sirvio?

Ela perguntou, com esta maneira de falar, se eu iria dar o meu voto ao apresentador Silvio Santos, cujo nome estava sendo divulgado como possível candidato à presidência da República. Respondi:

– Não sei ainda em quem vou votar, minha senhora.

– Intão vorte no Sirvio – aconselhou-me.

Silenciei, enquanto o meu amigo Carlos punha a mão na boca para não rir. Mostrei-me curioso:

– Por que a senhora acha que eu devo votar no Silvio Santos?

Replica imediata da mulher simples, com aparência de ter cerca de sessenta anos:

– Vore nu Sirviu purquê eli é gozadu i diverti a genti.

– Diverte?

– É, diverti, i também purquê sorta aviãozinho de dinheiro. Quando sorta pergunta, voceis querem dinheiro? Eu já peguei uma porção de aviãozinho de dinheiru.

O Carlos Cardoso mal segurava o riso e ela continuou:

– Ih... pareci qui u sinhô não gosta do Sirvio.

Expliquei tranquilamente:

– Não tenho nada contra ele, até o admiro, pois é simpático, generoso, um bom patrão.

Ouvindo isto, a mulher usou mais um argumento, a fim de me convencer a votar no Silvio Santos:

– Agora vô dizê uma coisa que vai convencê o sinhô a tê mais vontade de vortar nu Sirvio. Qué ouvi?

– Diga, minha senhora.

– O sinhô precisa vortar neli purquê eli é santu.

– Santo?

– Sim, eli não si chama Sirvio Santo?

– Perdão, o seu nome é Silvio Santos e não Silvio Santo.

– Não sinhô, é Sirvio Santo purqui eli é santo. Falam erradu u nomi deli. Vô dizê de novo, Sirvio Santo.

Vendo a minha cara sem entusiasmo, ela acrescentou:

– Agora vô convencê o sinhô a vortar nu Sirvio Santo. Olhi pra mim.

– Estou olhando.

– Sabi u qui eli fez?

– Não, o que foi?

– O Sirvio Santo ponho a mão no meu ombru e ieu chorei.

A minha resposta:

– O Silvio Santo pôs a mão no seu ombro? Muito bem, então vou votar nele.

Repleta de alegria, a devota do santo Silvio deu em mim um longo e sonoro beijo, que deixou o meu rosto bem molhado, como se ele estivesse debaixo de uma chuva forte...



Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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