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Quem manda é o Banco Central

Por Heródoto Barbeiro

Crédito: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

É um dia tenso para a economia. O Banco Central anuncia a nova taxa de juros e decide o que todo mundo já sabia. Aumenta o juro. Os analistas do mercado, políticos, economistas, bruxos e adivinhos em geral se agrupam em dois lados opostos. O debate chega às raias das profundezas das teses dos mais famosos economistas do mundo. A razão é substituída pela emoção e isto é o caminho mais curto para o vale-tudo. Há quem se reporte ao programa do presidente eleito que prometeu recuperar a economia do país com propostas muito mal explicadas e muito mais mal entendidas. Mas que dominaram a campanha eleitoral. De imediato surgem nos cabeçalhos dos artigos da mídia especializada a pandemia do coronavírus e a invasão da Ucrânia pelo czar Wlad I. Se não fossem esses “pequenos” problemas, tudo estaria muito melhor com as lojas cheias de compradores, portos abarrotados de commodities, novos modelos de celulares e muita simpatia com a China. Mas o vírus e o czar atrapalham a recuperação mundial e ainda ameaçam parte da população do planeta de morrer de fome ou da doença.


O presidente do Banco Central afirma que a política monetária terá de ficar restritiva em meio ao cenário de elevada inflação, mas que o banco não está tentando provocar uma recessão. Afinal, vários bancos centrais entram no mesmo caminho e aumentam as taxas de juros, como os da Suíça e do Reino Unido. A inflação ganha contorno global e nenhum país está fora do aumento dos preços. A competição é atrair capitais internacionais e não tem nada que os investidores capitalistas gostam mais do que uma suculenta taxa de juros. Buscam a remuneração do capital aplicado e a segurança de que não vão ser “tungados” por um pedido de rolagem da dívida externa ou simplesmente do comunicado “devo, não nego, pago quando puder”. Os bancos e fundos de investimentos internacionais têm passaporte permanente para os Estados Unidos, o país que, segundo eles, tem a moeda mais confiável do mundo e é para lá que aportam com os seus capitais. Um movimento que se iniciou após o fim da Primeira Guerra Mundial e nunca mais mudou, a ponto de o país se tornar a meca do capitalismo mundial. Investidor não dorme sem dar uma última olhada nos índices de fechamento do pregão da bolsa de Nova York.


“Não estamos tentando induzir uma recessão. Agora, estamos tentando alcançar uma inflação de 2%, compatível com um mercado de trabalho forte. É isso que estamos tentando fazer”, responde o presidente do Banco Central em coletiva de imprensa. De acordo com ele, os caminhos para trazer a inflação para o patamar dos 2% se tornam “muito mais desafiadores” devido a fatores que não estão sob o controle do Comitê, referindo-se aos impactos da guerra na Ucrânia. Ele disse ainda que flutuações nos preços de commodities poderiam impedir o pouso suave da economia dos EUA. Jerome Powell diz que a inflação de 8,6%, em 12 meses, a maior nos últimos 40 anos, obrigou o Federal Reserve a aumentar a taxa de juros de 1,5 a 1,75% ao ano, a maior nos últimos 40 anos. O banco está em uma sinuca de bico, ou controla a inflação ou leva a maior economia do mundo para tal pouso suave da atividade econômica. Em outras palavras, para uma recessão que atingiria primeiramente os seus maiores parceiros comerciais, entre eles o Brasil.


Heródoto Barbeiro é jornalista do R7, Record News e da Nova Brasil FM. Também é professor, Mestre em História pela USP e advogado pela FMU. Já passou pela TV Cultura, pela CBN e pela Globo. Você pode ver mais em www.herodoto.com.br