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Parece, mas não é! Vá-se lá saber...

Por Heródoto Barbeiro


foto de um trator agro adubando um terreno
Foto: Jannis Knorr

Vá-se lá saber por que o chefe do Poder Executivo se mete em polêmicas que podem resultar no acirramento dos ânimos da oposição e das críticas de parte da mídia. Isso pode resultar em perda de apoio da população, haja vista que os críticos não perdoam nem os erros de português que possa cometer. O espaço para criticar o chefe é muito mais amplo do que os elogios de sucessos de seu governo. No entanto, se meter em outros assuntos não governamentais arrasta uma nova multidão de críticos que não se resumem mais aos jornais da capital do Brasil, mas aos das principais cidades do país. Seria uma forma de debater ideologia e programa político que normalmente não estão ao alcance de grande parte da população brasileira? É um campo apenas para os intelectuais, muitos deles formados no exterior, ou adeptos de propostas que foram implantadas em outros países do mundo? Essas perguntas acendem também o ânimo dos analistas políticos de todos os jaezes e os historiadores em geral.


Para onde conduzir o Brasil? Essa pergunta tem inúmeras respostas por parte da elite econômica do país. Apoiar a agricultura, facilitar o acesso de mão de obra no campo, garantir mercados para os produtos primários brasileiros e cobrar impostos mais baratos na importação. Afinal, a elite quer roupas e perfumes franceses, porcelana portuguesa, máquinas inglesas e tudo o mais que não se produz aqui com tal qualidade e requinte dos importados. O poder está centralizado na sede do governo, onde se concentram os indicados para escrever as leis e apontar o rumo do país. A população em geral, quer no campo, quer nas cidades, não tem a menor interferência nos destinos da nação. No campo, está espalhada e ocupada em sobreviver; nas cidades, aglomerada em favelas sem qualquer saneamento ou política social. Apenas sobra para os moradores da capital do país assistir aos desfiles dos potentados, políticos ou não, nas avenidas, nos teatros e palácios custeados por quem nunca teve acesso a eles.


Os fazendeiros querem mão de obra barata para tocar o agronegócio. Desde o início da colonização portuguesa optou-se pela escravidão e, por isso, houve um verdadeiro assédio ao continente africano. O imperador D. Pedro I, personagem da separação do Brasil de Portugal, é visto como um aliado dessas elites. Porém, com a difusão dos jornais, escreve artigos em vários deles, sempre com pseudônimo, e defende propostas que não poderia fazer pessoalmente. Quer o fim do trabalho escravo e o incentivo para a importação de imigrantes europeus sob o regime de trabalho assalariado. A escravatura é um cancro que corrói o Brasil. Salta aos olhos, diz o imperador, os imensos e incalculáveis que a escravatura nos traz consigo. Vinte ou trinta mil almas todos os anos – e em dez anos 300 mil almas – e, por isso, é preciso uma lei que proíba expressamente a todo e qualquer indivíduo, da data da lei da proibição do tráfico escravatura, entrar neste Império, comprar, um só escravo que seja, a fim de que eles sejam obrigados a trabalhar pelas suas mãos, o que deixa os latifundiários de cabelos em pé. Declara no artigo do jornal que sabe que a cor do seu sangue é a mesma da de um negro! E que é preciso colocar um ponto final no tráfico de escravos africanos. Não está sozinho nessa luta – seu ministro, José Bonifácio, pensa a mesma coisa! Com essa disposição pode perder o apoio da oligarquia rural e o seu reinado pode não durar muito tempo. Fazer o quê? O articulista D. Pedro I, é considerado também um jornalista.*


*Artigo publicado no jornal O Espelho, em 1823. In VIANA, Hélio. D. Pedro I Jornalista. Sâo Paulo: Melhoramentos, 1967.




Heródoto Barbeiro é jornalista do R7, Record News e da Nova Brasil FM. Também é professor, Mestre em História pela USP e advogado pela FMU. Já passou pela TV Cultura, pela CBN e pela Globo. Você pode ver mais em www.herodoto.com.br


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