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Os cães possuem almas, acredito

Por Fernando Jorge

Imagem: Akash Verma / Scopio

Continuo impressionado com o prognóstico do meu querido amigo Ronaldo Côrtes, fino e arguto psicólogo (as suas crônicas revelam isto), que após me incentivar a escrever o romance autobiográfico Eu amo os dois, salientou de maneira segura:


– A maior parte dos leitores de seu romance será de mulheres, pois o caso de amor duplo, narrado na obra, vai lhes despertar muito interesse. Você, por causa disso, receberá inúmeras cartas das suas leitoras, com perguntas simples ou embaraçosas, ou até mesmo pedidos de conselhos...


Ronaldo acertou em cheio, mas quem poderia dar bons conselhos a elas seria ele e não eu, desprovido da sua grande capacidade de penetração psicológica.


Amável leitora enviou-me uma carta com as seguintes palavras:


“Depois de ler o seu romance autobiográfico Eu amo os dois, publicado pela editora Novo Século, três coincidências me impressionaram. A primeira, eu também me chamo Eliza, como a principal personagem feminina do livro. Segunda coincidência, eu também amo dois rapazes, de forma sincera, honesta. Terceira coincidência, eu também, como a Eliza do romance, decidi ter um cão para ser meu amigo, meu companheiro nos momentos de angústia.”


Em seguida a leitora do meu romance pergunta se na minha opinião os cães possuem almas, como nós, os seres humanos. Respondo afirmativamente, creio que sim.


Confesso, já encontrei cachorros e cadelas dotados de inteligência superior a de vários homens e mulheres.

Outra coisa, a raça canina, inúmeras vezes, é dotada de vidência, pode prever o que vai acontecer. Profetas com rabos e quatro patas...


Vou contar uma história verdadeira. Quando fiquei noivo da minha futura esposa, sua família era dona de linda cadela, chamada Ponga. Animal esperto, carinhoso. Todos os sábados, após o almoço, a família da minha esposa o trancava na cozinha, onde deixavam, no chão, água e alimento. Durante mais de dez anos assim procederam. Concluída essa tarefa, o meu sogro, a minha sogra, a minha cunhada, a minha futura esposa entrava no automóvel da família e partiam para Santos. Só voltavam na segunda-feira. Anos e anos assim agiram, porém num sábado, antes de entrarem no automóvel, rumo a Santos, a cadela Ponga parecia ter enlouquecido, ganindo sem parar, chorando, agarrando com os dentes a parte inferior da calça do meu sogro. Ela não queria que eles saíssem.


Resultado, no meio da estrada para Santos o automóvel capotou, ficaram machucados, e a minha sogra quebrou o braço. A Ponga previu tudo que ia acontecer. Os cães possuem almas, acredito.



Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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