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O sinhorr morra em qui bairra di Zan Paulo?

Por Fernando Jorge

Imagem: Freepik

Dois homens estavam num bar, tomando chopes. O mais velho, sentado em banco alto e o mais jovem, junto à pequena mesa, perto do banco alto. Indagou o mais velho ao mais jovem:


– Querro saber, o sinhorr, me desculpa, si o sinhorr é alemon.


Resposta imediata:


– Ja (sim), sô alemon.


– Wunder! (Maravilha!), eu também sô alemon!


Ambos estavam tomando o chope em canecas grandes. Decorridos cinco minutos, nova pergunta do mais velho:


Herr (senhor), me desculpa, o sinhorr morra em Zão Paulo?


– Morro, sim, em Zão Paulo.


Entusiasmo do outro, erguendo a caneca cheia de chope:


Schönheit! (Beleza!). Qui coincidenza ma-rra-vi-lho-za!


Eu também morro aqui em Zan Paulo!


Ficou tão alegre com a resposta que bebeu todo o resto do chope da sua caneca. E soltou logo mais uma pergunta:


– O sinhorr me desculpa, mas em qui bairra di Zan Paulo o sinhorr morra?


– Eu morro na bairra de Pinheirros.


A alegria do outro, ao ouvir a resposta, continuou a ser ruidosa:


Der beste! (Ótimo!). Que coincindenza, eu também morro na bairra di Pinheirros!


E feliz, risonho, voltou a perguntar:


– O sinhorr me desculpa, ma em qui rua e em qui númerro da bairra de Pinheirros o sinhorr morra?


– Eu morro na rua Teodorro Zampaio da bairra da Pinheirros, no numerro quarrenta quatro.

Impossível descrever o entusiasmo do autor da pergunta, que berrou:


Zusammentreffung! (Coincidência!) Eu também morro na rua Theodorro Zampaio, numerro quarrenta quatro!


Um frequentador do bar viu tudo isto e ficou espantado. O dono do bar lhe disse:


– Os dois alemães são pai e filho. Após beberem muito chope, um não conhece mais o outro... O álcool, aliás, tem adoradores em todos os países. Aqui no meu bar, dois gêmeos, embora brasileiros, ficaram tão bêbados que pediram a mim para eu os apresentar um ao outro, pronunciando por extenso os seus nomes...


Concluo este bate-papo afirmando que Jesus Cristo nunca se entregou ao vicio da embriaguez, como garantiu o Paulo Coelho numa entrevista concedida ao jornal inglês The Guardian. Blasfêmia, imensa blasfêmia, a do Paulito Coelhito, escritor mosquito! Ele será castigado por Deus.



Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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