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  • Redação JBA

O meu amigo Ronaldo Côrtes e a sua coragem

Por Fernando Jorge


O meu querido amigo Ronaldo Côrtes gostava de conversar comigo na sua pequena sala da antiga sede de sua rede de jornais. Trocávamos confidências. Ronaldo era um homem de personalidade forte, mas de alma sensível, delicada. Nele eu não sabia o que era maior, se a sua inteligência, se o seu coração. O que posso afirmar é isto: ambos tinham o mesmo tamanho, a mesma grandeza.


Conversando com ele, ouvindo a narrativa de episódios de sua vida, de repente eu o interrompi e perguntei:


- Ronaldo, diga-me uma coisa. Aqui na sua sala houve alguma briga, alguma cena violenta?


O meu amigo arregalou os olhos e abriu a boca, surpreso. Indagou:


- Por que você fez esta pergunta?


Respondi calmamente:


- Porque sinto que aqui, na sua sala, aconteceu algo pesado, não sei definir...


Espantado, Ronaldo disse:


- Meu Deus, Fernando, você acertou, aqui nesta pequena sala houve uma tentativa de assalto.


E ele me contou que ali, de repente, surgiu um bandido, um assaltante de arma em punho, mas ele, Ronaldo Côrtes, bem rápido, sacou o seu revólver e desferiu um tiro. O delinquente fugiu, rapidamente.

Depois Ronaldo acrescentou:


- Meu amigo, levante-se e veja ali, na porta, a marca da bala do meu revólver.


Ergui-me da cadeira e examinando a porta vi a marca da bala. Então eu disse:


- Puxa, Ronaldo, como você é corajoso! Mais um motivo para eu, além de ser seu amigo, ser seu admirador...


Ronaldo quis saber como eu captei esse choque violento entre ele e o facínora. Socorri-me da minha boa memória:


- Sou católico, Ronaldo, porém tenho mediunidade. Acredito em ambos, no kardecismo e no catolicismo. Vou agora mostrar um episódio impressionante da minha vida. Quando eu era noivo da minha futura esposa, quis comprar uma casa por intermédio do Instituto de Previdência. O corretor levou-me a uma casa térrea de ampla varanda, na área de Santo Amaro. Casa antiga, mas em bom estado, necessitada de pintura. Eu estava eufórico, alegre. No entanto, à medida que eu ia andando pela casa, comecei a ficar triste, deprimido. No momento em que o corretor me mostrou o último quarto, o maior, o dos fundos da casa, a sensação de angústia aumentou, senti vontade de chorar. Disfarcei a emoção, para o corretor não perceber. Todavia, no dia seguinte, eu lhe disse: seja franco, diga a verdade, naquela casa que você me mostrou ontem, viveu uma pessoa de alma sofredora? Ele perguntou: alguém deu informações a você? Respondi que ninguém me disse nada e descrevi a minha tristeza, a minha angústia, a minha vontade de chorar, ao ver o último quarto. Ajuntei estas palavras: senti a forte impressão de que ali, no último quarto, viveu uma alma sofredora. O corretor bem surpreso, informou-me que ali, naquele quarto, viveu uma senhora que chorava o dia inteiro, por causa de uma tragédia que aconteceu na sua vida.


Ronaldo Côrtes também se emocionou ao ouvir a minha narrativa. Os seus olhos se encheram de lágrimas. E disse:


- Não há dúvida, meu amigo, você é dotado de aguda hipersensibilidade, capaz de sentir o que é impalpável.


Vou contar no meu próximo bate-papo como essa hipersensibilidade (ou mediunidade), admitida pelo meu querido amigo Ronaldo Côrtes, ajudou-me a sair de uma dúvida persistente, avassaladora.


Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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