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Nem todo gordo é gordo, nem todo magro é magro

Por Fernando Jorge

Imagem: Waldemar Brandt/Unsplash

Na Bíblia, no livro do Eclesiástico, o amigo leitor encontrará esta passagem:

“Tende cuidado de possuir bom nome, porque este vos será mais permanente do que mil tesouros grandes e preciosos.”

A Bíblia se refere ali, não há dúvida, à boa reputação, mas os nomes às vezes nos surpreendem. Nem todos sabem, por exemplo, que Gabriel é um nome próprio vindo do hebraico e que significa “herói de Deus”. E Margarida saiu do grego margarítes: quer dizer “pérola”. Sabem o que significa o nome do general russo Zhukov? Apenas isto: “filho de um besouro”. Ora vejam só, um bravo militar, vencedor de inúmeras batalhas, tinha o nome do pequeno e inofensivo inseto da ordem dos coleópteros!


O sultão Seif Edine Quotuz, do Egito, merecia o seu nome, pois este significa "cão raivoso". Eles, os árabes, não tem os patronímicos, os sobrenomes derivados do nome do pai ou de um antecessor, porque o nome se extingue com a morte do dono e não passa aos descendentes.


Ficou célebre, nos Estados Unidos, a “família Doença”. Um casal, o senhor e a senhora Emsy Jackson, de Los Angeles, batizou dessa maneira os três filhos: Colite, Apendicite e Meningite. Aliás, no país do presidente Bush, chefe índio Crina de Loba deu os seguintes nomes aos seus dez filhos: Segunda-Feira, Terça-Feira, Quarta-Feira, Quinta-Feira, Sexta-Feira, Sábado, Domingo, Hoje, Amanhã e Ontem.


Mas aqui no Brasil nós também temos coisas desse tipo. A folclorista Inês Silva, de Ponta Grossa, enviou esta informação ao pesquisador Mário Souto Maior:

“...em Belém do Pará, onde morei quando menina, corria esta história sobre uma família da ilha de Marajó. Era um fazendeiro cujos filhos tinham os nomes terminados em baldo: Ubaldo, Vilebaldo. E como eram muitos, o pai decidiu que aquele que estava para nascer seria o último, razão pela qual foi batizado Parabaldo. Como no ano seguinte houve outra gravidez, o jeito que teve foi chamar o menino de SeguebaIdo.”

Depois de narrar isto, a folclorista acrescentou:

“Contavam, também, que um dos rebentos, nascido no ano em que muitos habitantes da ilha foram atacados de impaludismo, foi registrado como Impalubaldo. Numa das gestações, a mãe sofreu uma séria infecção, cujo tratamento custou muito dinheiro: foi o bastante para que o menino fosse batizado como Carobaldo.”

Segundo um texto de Álvaro Moreyra, o escritor Graça Aranha conheceu no Maranhão uma jovem com este nome curioso: Holofotina. Contaram ao escritor porque ela se chamava assim. Há muitos anos esteve no porto de São Luís um navio de guerra, e na noite da chegada a faixa luminosa do seu holofote passeou pelo céu.


Um nome às vezes nos engana, fornece uma falsa impressão. Garcia Redondo, engenheiro e escritor, nada tinha de redondo, era alto e bem magrinho. Certo dia ele foi procurado por um homem, que lhe disse:


- Quero falar com o doutor Redondo.

- Sou eu - afirmou o engenheiro.

- Mas é com o senhor seu pai que eu quero falar - respondeu o homem.

- Este não está aqui e não é engenheiro.

- Então o senhor é que é o engenheiro Redondo?

- Precisamente.

- Homessa!

- De que se espanta?

- É que eu o fazia muito mais velho, gordo, redondo, enfim.

- Como vê, enganou-se. E o senhor, como se chama?

-Oliveira, um seu criado.

- No entanto, o senhor não tem raízes, nem caule, nem folhas, e não dá azeitonas... Não se espante, pois, de eu me chamar Redondo e ser comprido.


E chegamos ao fim da conversa, amigo leitor.


Fernando Jorge é jornalista, escritor, historiador, biógrafo, crítico literário, dicionarista e enciclopedista brasileiro, Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, que acaba de ser lançado pela Editora Novo Século.

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