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Não quer viver muito? Só ande de automóvel

Por Fernando Jorge

Freepik

Eu tenho um amigo que mora perto da minha casa e sempre o aconselhava:


– Você só anda de automóvel. Se quer ir a padaria, que fica a pouca distância do seu lar, você em vez de ir a pé vai de automóvel. Nunca anda a pé, você está errado, prejudicando a sua saúde, tome cuidado.


Decorridos alguns meses, durante os quais ele desapareceu, ouvi a campainha da entrada de minha casa tocar. Fui ver quem era. Era um sujeito gordo, em frente de um automóvel. Cumprimentou-me:


– Como vai, Fernando?


Olhei bem o fulano, sem pensar que o conhecia. Ele disse:


– Você não está me reconhecendo, não sabe mais quem sou eu?


Fixei o meu olhar no seu rosto e foi com dificuldade que reconheci o meu amigo incapaz de andar a pé. O meu espanto foi enorme. Diante de mim estava um homem obeso, de cara também gorda, olhos quase invisíveis, empapuçados. Abriu a boca e soltou estas palavras:


– Você não está me reconhecendo porque eu engordei muito, mais de vinte quilos. E fiquei diabético, com pressão alta.


Respondi, penalizado:


– Por que você não larga o seu automóvel e passa a andar bastante a pé? Sempre o aconselhei a andar com as suas pernas e não com as rodas do seu automóvel.


Um sorriso triste despontou na sua cara inchada pela gordura e ele admitiu:


– Sim, é verdade, mas eu não tenho vontade forte e continuo a só a andar de automóvel.


Tive vontade de lhe dizer:


– Você não quer viver muito? Então só ande de automóvel. É um modo de se matar, suicidar-se. Se Deus, nosso amado pai, criou a homem com duas pernas, não foi para ele ficar parado, em posição de estátua. Após meia hora de caminhada, está provado, a gordura do nosso corpo começa a desaparecer.


Amigo leitor, dar conselhos a quem possui cabeça dura é como jogar boa semente num terreno estéril, coberto de pedregulhos e de ervas daninhas...


Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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