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Não podemos apagar a história do país

Por Coronel Camilo


Um ato de vandalismo tomou conta dos noticiários nos últimos dias, causando indignação e tristeza. Isso porque a estátua de Borba Gato, na zona sul da capital, foi atacada por um grupo que alegou estar fazendo um protesto. O argumento utilizado foi de que as pessoas ali pretendiam chamar a atenção para o racismo, uma vez que o bandeirante seria, na visão errada do autor do crime, um genocida, alguém que se preocupou em escravizar índios e, por vezes, matá-los, longe da realidade.

A depredação e violência nas ruas nunca se justificaram. Essas não são as formas de se protestar. Na minha visão, essas ações são realizadas por pessoas completamente carentes de argumentos. Se pretendermos fazer alterações, seja trocar ou retirar um monumento, seja mudar um nome de rua, temos que entender a história e checar se não estamos cometendo o grave erro do revisionismo.

Anteriormente, já falei sobre isso: a incrível vontade de mudar nomes de logradouros em São Paulo - ou em qualquer lugar. Mas chamo a atenção: tentar reescrever a história é um grande erro. Ainda que negativos, os fatos, cada qual em seu momento, tiveram sua importância na evolução da democracia. Não se pode apagar a história. Não se pode fingir que não ocorreram episódios no passado.

O escritor britânico George Orwell, no livro "1984", criticou o comportamento dos ditadores que reescreviam a história. "Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado". O que agora era verdade, era verdade do sempre, ao sempre.

Basta um rápido passeio por ruas da cidade para percebemos que muitas vias tiveram seu nome alterado e a história vai se perdendo com o tempo. Foi o que ocorreu recentemente com a Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo, que tentou assumir o papel do Grande Irmão orwelliano ao propor a mudança de nome de logradouros que homenageiam figuras ligadas ao regime militar.

Decisão certa: o então prefeito Gilberto Kassab sancionou a Lei nº 14.454/07, que admite mudança de nomes de logradouros em três hipóteses: denominações homônimas, não sendo homônimas que apresentem ambiguidade de identificação ou que exponham moradores ao ridículo ou ainda que apresentem similaridade ortográfica, fonética ou fator de outra natureza.

Sempre respeitei a memória dos que sofreram no regime militar, mas também me solidarizo com as vítimas das ações armadas perpetradas pelos grupos de contestação ao regime contra o governo, caso do capitão Alberto Mendes Júnior, morto por terroristas no Vale do Ribeira na década de 1970. Não podemos ficar reescrevendo a história por prazer pessoal de quem está no poder.

Na Europa, muitos locais conservam nomes de logradouros por séculos, como é o caso da Via Ápia, em Roma. Em São Paulo, vivemos o contrário. As pontes das marginais, por exemplo, receberam nomes diversos do tradicional, complicando a localização dos usuários que trafegam ali.

Dar uma nova interpretação aos fatos passados de maneira simplista, sob a ótica e os valores do presente, é uma falta grave. Qual Getúlio Vargas mereceria ter nome de logradouro? O que foi ditador por 12 anos, implantou o Estado Novo, fez uso sistemático da repressão política e entregou Olga Benário Prestes aos nazistas? Ou seria o "pai dos pobres", modernizador do Brasil, responsável pela industrialização de áreas estratégicas e pela legislação que protege os trabalhadores?


É muito importante que a história seja preservada. Ela serve de norte para avaliarmos erros e acertos para podermos viver um presente com mais sabedoria e visando um futuro melhor. Medidas como essa acabam a história de um povo e de um país. Esse não é o melhor caminho.

Coronel Camilo é secretário-executivo da Polícia Militar. É formado em Administração de empresas pelo Mackenzie, com bacharelado em Direito pela Universidade Cruzeiro do Sul e pós-graduado em Gestão de Tecnologia da Informação pela FIAP e em Gestão de Segurança Pública pela Secretaria Nacional de Segurança Pública.

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