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Mulheres no estádio

Por Heródoto Barbeiro


Foto: Dievil Photo/Shutterstock

O Brasil está de olho na Copa do Mundo. Até funcionários públicos ganham feriado nos dias de jogos da seleção. Os jornalistas esportivos se preparam para os jogos mais importantes com acompanhamento dos treinamentos e a avaliação dos adversários do Brasil no campeonato mundial. Há uma bolsa de apostas e a seleção nacional está bem cotada. É uma das favoritas para levar o caneco e dar ao povo uma alegria inédita. Políticos se mobilizam para receber a seleção, talvez todos em cima de um carro de bombeiros desfilando na capital do país, jogando beijinhos para a plateia, a caminho do palácio do governo para serem recebidos pelo presidente da República e todo o ministério. Uma festa de arromba. Ninguém cogita uma derrota nem nas fases de classificação, nem em uma grande final. Não é para menos: o time está afinado e abateu os adversários nos jogos de classificação para o campeonato mundial.


Ninguém admite que o futebol é uma caixinha de surpresas, como diz o cronista esportivo. Isto quer dizer que nem sempre vence o time melhor. Mas quando se trata de torcer por uma seleção, some a razão e pontifica a emoção. O time não tem outra escolha, vencer ou vencer. Não há desculpa que o adversário joga na retranca e vez ou outra sai em perigosos contra-ataques. Tem que correr, pôr a bola em jogo, não fazer cera e aproveitar cada segundo da porfia, como dizia outro cronista. Os debates nos bares, transportes públicos, salas de aula são inevitáveis. Os mais radicais não admitem que o futebol tem mudado, técnicos estrangeiros treinam seleções de outros países, jogadores precisam ter treino de atletas. É verdade que uma boa parte dos torcedores admite que a seleção tem dribles e criatividade que nenhuma outra possui. Por isso não pode empatar. Perder, nem pensar.


A derrota do selecionado causa uma emoção nacional de grande impacto na sociedade brasileira. Historiadores comparam o trauma da perda do campeonato ao suicídio do presidente Getúlio Vargas. Em 1950, o país só tinha um lado. As querelas políticas são abandonadas e todos juntos torcem pela seleção. Mas no caminho da conquista da Copa do Mundo tinha a seleção do Uruguai. Tinha a seleção do Uruguai no meio do caminho. A pátria em chuteiras lotava o maior estádio do mundo, o Maracanã, com 200 mil torcedores, muitas mulheres e o cronista Nelson Rodrigues. Os locutores das rádios de alcance nacional choram nos microfones, não sabem o que dizer. Passadas algumas horas, os boleiros fanáticos saem em busca de um bode expiatório, ou melhor, dois jogadores para culparem pela derrota de 2 a 1 contra a seleção azul celeste. Um lateral e o goleiro são escolhidos. O zagueiro Bigode e o goleiro Barbosa são responsabilizados pela derrota da seleção. Até o uniforme do time é trocado, deixa de ser a camisa branca e passa a ser a amarela. Nasce a seleção canarinho, pentacampeã mundial. Mas tinha uma seleção alemã no caminho...




Heródoto Barbeiro é jornalista do R7, Record News e da Nova Brasil FM. Também é professor, Mestre em História pela USP e advogado pela FMU. Já passou pela TV Cultura, pela CBN e pela Globo. Você pode ver mais em www.herodoto.com.br



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