Buscar
  • Coronel Camilo

Microviolências: tudo começa pequeno

Por Coronel Camilo


Recentemente li um artigo no jornal O Estado de S. Paulo, na coluna do jornalista Fausto Macedo, onde o advogado Ronaldo Ferreira Júnior explica, muito claramente, que muitas pessoas podem estar sofrendo pequenas violências no seu dia-a-dia, sem se perceber.


Essas pequenas violências, que ele denomina como microviolências, podem ocorrer com todas as pessoas, mas são mais frequentes com as mulheres, as crianças e com grupos minoritários. E o pior, as pessoas que estão sofrendo essa situação nem sempre se dão conta disso. Com o tempo, essa violência cresce e pode até se transformar em agressões.


Quantas vezes nós não presenciamos os pais falando com seus filhos ou pessoas adultas falando com crianças, com mulheres usando chavões que os menosprezam, tais como: "fala que nem homem", " isso é coisa de mulherzinha" ou "só podia ser coisa de mulher mesmo". Às vezes, essa microviolência é mais sutil ainda como a simples interrupção da fala, não permitindo que a pessoa termine o seu raciocínio ou ainda roubando a ideia de uma mulher ou criança como se fosse sua.


Essa atitude, que pode ser imperceptível até para quem as pratica, vai impregnando nas outras pessoas e as diminuindo. Muitas vezes os agredidos superam essa questão ao longo do tempo, porém, em alguns casos, isso é muito prejudicial psicologicamente e impede que a pessoa se desenvolva perante a vida.


Conforme cita Ronaldo Júnior, essas questões "têm até nome": manterrupting, que consiste em um homem interromper a mulher, impedindo que ela complete um raciocínio. O bropriating, que é uma forma de roubar as ideias femininas e apresentá-las como se fossem de um homem, deslegitimando suas capacidades; o mansplaining, que é quando a mulher perde seu local de fala, sobre um assunto que ela entende, para um homem, ou ainda o gaslighting, típico dos relacionamentos abusivos, em que é a tática usada para questionar e manipular alguém, numa tentativa de convencer a vítima de que ela está fora de sua sanidade.


No mundo real já é uma questão muito séria e quando vamos para o meio virtual, com avanço das redes sociais, que entram em nossas casas e nos acessam diretamente e aos nossos filhos, ganha um potencial muito maior, capaz de provocar danos às pessoas. É o chamado cyberbullying.

Como combater esta microviolência? Na segurança pública sabemos que devemos combater os pequenos delitos, os desvios de comportamento, assim evitamos os grandes crimes. Foi dessa forma que Rudolph Giuliani, prefeito de Nova Iorque, nos anos 90, implementou a chamada “tolerância zero” e reduziu os homicídios, combatendo desvios de comportamento e os pequenos delitos. Na microviolência é a mesma coisa. Aquele que pratica a violência tem que se policiar, saber ouvir, respeitar as pessoas, ter cuidado com as palavras, ter empatia, saber que as palavras machucam. Por outro lado, quem recebe essa microviolência deve se expressar, deixar claro, sem agredir, informar que não gosta do que foi falado ou feito, que aquela não é a melhor postura. Agindo assim, evita que essa microviolência cresça e se transforme em algo pior. Tudo pode se resumir numa única palavra: respeito. Respeitar a individualidade das pessoas é fundamental, todos somos diferentes. Assim poderemos, além de evitar que problemas cresçam, construir um mundo melhor.


Coronel Camilo é secretário-executivo da Polícia Militar. É formado em Administração de empresas pelo Mackenzie, com bacharelado em Direito pela Universidade Cruzeiro do Sul e pós-graduado em Gestão de Tecnologia da Informação pela FIAP e em Gestão de Segurança Pública pela Secretaria Nacional de Segurança Pública.

3 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo