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Collor, adquira mais cultura!

Por Fernando Jorge


O ex-presidente Fernando Collor deu este conselho aos empresários da FIESP, na época em que ocupava o cargo supremo:


“-Se não estão satisfeitos, abandonem tudo e vão viver lá nas suas mansardas!”

Collor pensa que mansarda é palácio, uma habitação rica, suntuosa. Ora, o substantivo feminino mansarda, oriundo do francês, designa uma casa pobre, miserável. Amigo leitor, você conhece algum empresário da FIESP que vive em casas como as das favelas? O Mário Amato vive numa mansarda?


Impávido na sua falta de cultura, capaz de se equilibrar num jet ski, mas incapaz de não soltar erros de português, Fernando Collor de Mello fez esta crítica contra os nossos empresários:


“-É uma autofagia, ou seja, é um querendo engolir o outro" (Folha de S. Paulo, edição do dia 17 de dezembro de 1991).

Autofagia, Collor? Autofagia e comer a própria carne. Que erro, que ignorância! Preste atenção, se um economista quer engolir o outro, isto não e autofagia, é antropofagia, canibalismo, o ato de devorar a carne dos nossos semelhantes, à maneira dos índios tupinambás, descritos por Jean de Léry no seu livro publicado em 1578, a Histoire d'un voyage fait en la terre du Brésil.



Vejam alguns erros de português do Fernando Collor de Mello:


“-... já pedi, inclusive ao secretário de Imprensa, que depois, caso seja do interesse dos senhores, olhar e assistir um programa de uma emissora de televisão” (Folha de S. Paulo, 17-12-1991).

Aqui existem dois erros. Falta a preposição para: “para olhar”. Segundo erro: é "assistir a um programa", porque na acepção de estar presente, presenciar, o verbo assistir é transitivo indireto, com a preposição a. Collor, enfie o que eu disse na sua cachola. E largue o seu jet ski, volte a prestar atenção, pois vou lhe fornecer um exemplo, para você não errar no emprego do verbo assistir:


“Depois de ter assistido a um auto-de-fé em Évora, e em Beja a um combate de touros...” (Antônio Feliciano de Castilho, Quadros históricos de Portugal, volume II, página 60).

Na época em que foi presidente da República, o Collor não parava de soltar erros de português. Certa vez uma repórter da TV Globo lhe fez esta pergunta:


“-Presidente, o senhor firmará um acordo com a oposição?”

Collor respondeu:

“-Nunca! Jamais me sentarei numa mesa para firmar um acordo com a oposição, jamais!”


Ó Collor, largue o seu jet ski, eu já aconselhei! Lar­gue! Estude mais, raciocine mais! Você, se quiser firmar um acordo, deve sentar-se junto à mesa e não em cima dela! Sou dono de um espírito gene­roso, e por este motivo agora decidi reproduzir, a fim de lhe apresentar um bom exemplo, uma frase extraída do Quincas Borba, dessa obra-prima do nosso imperecível Machado de Assis:


“Sentou-se à mesa, calado, dando tempo a que o criado entregasse a carta à ordenança”.

Amigo leitor, se o dinheiro do Collor se transformasse em cultura dentro do seu crânio, ele seria de fato um homem imensamente rico. Mas como o ex-marido da Rosane só tem o dinheiro e não a cultura, para mim ele é imensamente pobre.


Fernando Jorge é jornalista, escritor, historiador, biógrafo, crítico literário, dicionarista e enciclopedista brasileiro, Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Cale a boca, jornalista!”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora Novo Século.

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