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Aceitar tudo, às vezes, é perder tudo

Por Fernando Jorge

Imagem: Freepik

Quando, há mais de quinze anos, o meu querido amigo Ronaldo Côrtes me aconselhou a narrar num livro a minha história de amor, da qual nasceu o romance Eu amo os dois, lançado pela editora Novo Século, ele me advertiu:


- Depois do seu romance aparecer, a obra poderá causar reações embaraçosas.


Perguntei ao Ronaldo:


- Embaraçosas para quem?


Respondeu, pondo a mão no meu ombro:


- Para você.


- E por que?


Explicou, sorrindo:


- Porque contará a história verdadeira de uma jovem que acabou gostando, de modo sincero, de você e do primo dela. Tudo por causa da mãe, pois esta não parava de aconselhar a filha a sempre ter dois namorados, e assim, se um escapasse, não a quisesse mais, ela ficaria garantida com o outro.


O meu amigo Ronaldo Côrtes foi profeta. De fato, o meu romance me colocou, agora, numa situação algo embaraçosa. Uma leitora da obra enviou-me extensa carta, onde declara:


“Prezado escritor, li com prazer o seu romance Eu amo os dois, de leitura agradável, no qual revela que largou Elza, sua namorada, pelo motivo dessa moça também amar o primo. O senhor, perdoe-me a franqueza, agiu de maneira precipitada. Que culpa Elza tinha, se gostava do senhor e do primo, de forma pura, sem qualquer tipo de falsidade? Em vez de se afastar da moça, o senhor deveria ter lhe prestado ajuda. Em vez disso, mostrou-se cruel, impiedoso. Ficou com o seu orgulho ferido. Ela não cometeu um crime. Elza precisava de compreensão, de assistência psicológica. E tanto isso é verdade que no livro o senhor confessa que pretendia levá-la a um psiquiatra. Pretendia, mas desistiu de levá-la. Por que? O seu machismo falou mais alto? Perdoe-me se estou sendo rude, não desejo ofendê-lo.”


Passo a responder a essa leitora. Não, não me senti ofendido. Sou um homem que detesta a mentira, a hipocrisia, a falsidade. Os bajuladores me causam nojo. Gosto da franqueza, da sinceridade, mesmo quando discordo de quem me critica ou me dá a ideia de estar cometendo uma injustiça, em relação a mim. Posso errar e já errei dezenas de vezes. Homem imperfeito, só vejo perfeição em Deus, dono da mansão celeste sonorizada por sinos de ouro, onde moram o meu pai, a minha mãe, meus irmãos, minha esposa, meus amigos queridos como Ronaldo Côrtes, Jânio Quadros, Cláudio Abramo, Enio Silveira, Carlos Heitor Cony.


Eu compreendi a reação da leitora do meu romance, que informa na carta ser feminista. Parabéns, apoio as feministas.


Alego apenas em minha defesa: todas sociedades humanas se acham regidas por leis, normas, códigos. Se estas coisas não existissem, o que aconteceria? Aconteceria o caos, a bagunça total. Nenhum freio poderia conter a expansão dos nossos baixos instintos. Um homem casado, querendo livrar-se da sua esposa, lhe daria um tiro para a matar e substitui-la por jovem prostituta. Uma esposa, também na ânsia de se libertar do marido, logo o envenenaria, a fim de continuar a manter relações sexuais com os seus dois amantes.


Não reagir, aceitar tudo, em certas circunstâncias, é fugir, perder tudo.


Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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