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A vitória de uma Santa

Por Fernando Jorge

Estátua de Santa Iria, em Portugal (Imagem: Reprodução Youtube)

Uma das lendas mais encantadoras da Europa, é a de Santa Íria.


Narra a maravilhosa história que esta criatura de lindo nome nasceu num recanto de Portugal, localizado no alto da Serra de Aire, um pouco além das nascentes do Lis. Educaram-na em certo mosteiro de monjas beneditinas, governado por seu tio, o abade Sélio. E a jovem tinha como mestre um sacerdote chamado Frei Ambrósio, grande conhecedor das letras sagradas e profanas.


Dotada de virtudes inabaláveis e célica formosura, ela passava os dias no mosteiro e apenas saía aos domingos, acompanhada pelas monjas, a fim de assistir à missa.


Um príncipe, no entanto, quando a viu, apaixonou-se. E de tal maneira, que ficou a cismar, a cismar, a ponto de cair doente.


Íria, assim que soube do fato, foi visitar o enfermo, para convencê-lo a não pensar nela, já que a sua vida estava toda consagrada ao Senhor. O príncipe, depois de ouvir o juramento que a moça lhe fez, de jamais se casar com outro, sentiu-se conformado e depressa recuperou a saúde.


A jovem se recolheu ao claustro, mas frei Ambrósio, que sempre se mostrara um professor desvelado, também se apaixonou por ela. E pôs-se a requestá-la, a dirigir-lhe galanteios. Todavia, esbarrou na indestrutível retidão daquela alma sem jaça. Raivoso, a chamejar de ódio, decidiu ser o executor de uma torpe vingança.


Sorrindo, antegozando o efeito da sua maldade, preparou uma droga que, uma vez ingerida, fazia, o ventre avolumar-se de modo impressionante. E cheio de blandícias, com mel na voz, persuadiu a inocente a tomar a beberragem.


Imediato a barriga da pobre se dilatou, arredondou-se, fornecendo-lhe o aspecto de mulher grávida.


Então a malícia e a calúnia se incumbiram de espalhar aos quatro ventos que Íria era uma barregã, uma despudorada. A donzela fugiu de todos e ensombrou-se-lhe de funda tristeza o semblante.


Sozinha, imersa na dor, ia carpir suas mágoas junto às ribas, do Tejo. E, numa dessas ocasiões, um soldado do príncipe, por ordem deste, assassinou-a com a maior frieza e lançou o cadáver no rio.


O abade Sélio, graças à intuição sobrenatural, teve conhecimento do que ocorrera. Reuniu o povo, os fidalgos, os padres e as monjas. Contou-lhes as agruras e o fim da meiga sobrinha. Os ouvintes se comoveram. E formou-se um longo cortejo que saiu à procura dos restos da infeliz.


Após dura caminhada, e aos soluços, a entoar cânticos e ladainhas, chegaram às margens do Tejo. A turba, neste momento, contemplou um milagre: as águas do rio se ergueram e se abriram de par em par. Permaneceram imóveis, eretas e alvas como duas nitentes muralhas de prata. Bem no fundo do caudal, no seu leito de areias fofas e douradas, viram um celeste sepulcro de mármore, cinzelado divinamente pelas mãos dos anjos, onde a santa repousava com o seu perfil sereno e os marfíneos dedos enclavinhados sobre o peito.


A multidão avançou para arrebatar o túmulo entalhado nas sidéreas regiões do Todo Poderoso, mas logo as águas o cobriram de novo, à semelhança do lírio cujas pétalas se fecham e aprisionam uma estelar gota de orvalho.


Ah, leitor, se nós pudéssemos ver a albente morada que apareceu nas profundezas do Tejo! Que monarca teve jazigo assim? Sardanapalo, Nabucodonosor, Alexandre Magno, Augusto? Que imaginário é capaz de produzir outro idêntico? Como as nossas mãos são toscas, grosseiras, rudes, imperfeitas, em comparação com as dos alados artistas do etéreo sepulcro de Santa Íria!!


Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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