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A mulher com cara de homem que quis me namorar à força

Por Fernando Jorge

Imagem: Freepik

Recebi de gentil leitora uma carta, na qual escreveu:


“Admirei como o senhor conseguiu libertar-se de uma paixão, após ler o seu romance autobiográfico Eu amo os dois, publicado pela editora Novo Século. Diga-me, por favor, como deverei agir para me livrar de um rapaz antipático, apaixonado por mim. Não gosto dele, que me persegue todos os dias”.


Prezada leitora, não sou mestre em assuntos de amor. Quem poderia orientá-la é o meu inesquecível amigo Ronaldo Côrtes, admirável conhecedor das complexidades da alma humana. As suas belas crônicas, divulgadas por esta poderosa e influente rede de jornais, provam isto. Entretanto, a fim de diverti-la, amável leitora, vou narrar aqui um pitoresco episódio de minha vida.


Fui nomeado, bem jovem, chefe da Divisão Técnica de Biblioteca da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Nunca fui metido a conquistador de mulheres e sempre respeitei as mulheres, mas uma funcionária da Assembleia quis me conquistar à força. A fulana tinha cara de homem e até bigode. Quando eu a via, dava-me a impressão de fazer a barba três ou quatro vezes por dia, de manhã, à tarde, à noite, e antes de dormir.


A machona não parava de me convidar a sair com ela, ir ao cinema, restaurantes etc. O assédio se tornou asfixiante. Todos meus colegas viam essa perseguição. Pensei, pensei, e resolvi acabar com aquilo. Que fiz? Fui a uma loja de brinquedos e comprei um revólver de brinquedo que parecia mesmo um revólver. Em seguida combinei com o meu colega, Sebastião Feliciano Ferreira, grande amigo, para dizer o seguinte a bigoduda: o Fernando Jorge é louco, comprou um revólver e o encheu de balas, pois deseja matar com dez tiros uma pessoa que o persegue e não sei quem é.


O meu amigo disse isto a ela. Depois, fingindo não vê-la, fiquei a pouca distância da fulana. Saquei o revólver e o beijei. Resultado, quando viu eu fazer isto, empalideceu e nunca mais me procurou, sumiu da minha vista...


Aconselho, contudo, a ninguém me imitar, porque a senhora Violência, frequentes vezes, gosta de andar junto de um primo, chamado Crime. Confesso, eu errei. A experiência é uma riquíssima coroa de ouro, porém cheia de indeléveis manchas negras. As manchas existem nessa coroa por causa dos nossos erros. E convém citar aqui uma frase atribuída a São Paulo: é mais forte o homem que domina a si próprio do que aquele que se apodera de cem cidades.



Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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