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A moça muito pobre, que me deu um livro muito caro

Por Fernando Jorge

Imagem: Freepik

Tornei-me amigo, na época da minha juventude, de uma moça magrinha muito pobre, que trabalhava num modesto estabelecimento comercial. Ela me olhava com ternura e logo percebi, sentia amor, eu era o dono do seu coração. Certa vez ela comprou um livro bem caro e me deu como presente. Agradeci, dizendo:


– Obrigado, mas não faça mais isto, você é muito pobre e me deu um livro muito caro.


Sorrindo, a moça magrinha, bem magrinha, acariciou a minha mão e respondeu de maneira suave:


– Você é escritor e jornalista, gosta de livros, e eu quis agradá-lo...


Continuou a acariciar a minha mão. Viva eu mil anos e nunca poderei me esquecer dessa caricia. Ela me amava, mas eu, no ardor da mocidade, não quis namorá-la, pois queria amar uma moça forte, saudável, cheia de vida, até esportiva. Hoje reconheço, errei. Fico emocionado, quando me lembro dessa história, porque a moça frágil, magrinha, morreu logo, tuberculosa. Os meus olhos ficam úmidos ao lembrar-me daquela moça pobrezinha, de alma pura, que comprou para mim um livro caro. Até hoje beijo e acaricio esse livro, é para mim uma relíquia.


A lembrança da mocinha pobre que me amou, faz vir à minha memória esta poesia de Ribeiro Couto:


“Eu amo aquela estaçãozinha sossegada,

Aquela estaçãozinha anônima que existe

Longe, onde faz o trem uma breve parada...

Na casa da estação, que é pequena e caiada,

Mora, a se estiolar, uma menina triste.


À chegada do trem, semierguendo a cortina,

Ela espia por trás da vidraça que a encobre.

Muita gente do trem para fora se inclina

E olha curiosamente o rosto da menina,

Tão anônima quanto a estaçãozinha pobre.


O trem parte... Ficou na distância, esquecida,

A estaçãozinha... e a moça triste da janela...

Mas vai comigo uma lembrança dolorida...

Quem sabe se a mulher esperada na vida

Não era aquela da estação, não era aquela,

Aquela que ficou lá para trás, perdida?”


Após ler esta poesia de Ribeiro Couto, tive a seguinte impressão: a moça da estaçãozinha pobre é a moça magrinha que me amou na minha juventude.


Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.