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A cara do doutor metido a besta

Por Fernando Jorge


Conheci, ao longo da minha vida, muitas pessoas orgulhosas, convencidas, metidas à besta, mas uma superou todas as outras. Era um médico cujo diploma foi obtido na Alemanha, embora ele fosse brasileiro. Andava de cabeça sempre empinada e não cumprimentava ninguém. Se uma pessoa o cumprimentasse na rua, não retribuía o cumprimento, fingindo não a ter visto. Um amigo meu, sujeito gozador, apresentou-me a esse fulano, dizendo:

– Apresento à sua distinta pessoa o diplomata Fernando Jorge, que vai ser o representante do Brasil na ONU.


Fiquei surpreso com o cinismo, a audácia, a imensa mentira do meu amigo gozador, porém ele falou de maneira tão firme, que o metido à besta acreditou. Respondeu:

– Devido a sua alta posição, aceito conversar com o senhor. Decerto já ouviu falarem de mim, sou famoso.


Eu ia dizer, não, nunca ninguém me falou a seu respeito, pois sou sincero, detesto a mentira, contudo o meu amigo gozador apressou-se a afirmar:

– Fernando Jorge ouviu dezenas de elogios a sua ilustre pessoa e até já o defendeu quando um sujeito o criticou.


O médico metido à besta quis logo saber:

– Como foi?


Sério, o meu amigo gozador começou a explicar:

– Fernando, aqui ao seu lado, ouviu um cara dizer que o senhor declarou ser superior a milhões de pessoas, porque é doutor. Então o meu amigo Fernando Jorge o aconselhou a respeitá-lo. Mas o cara respondeu, garantindo: se ele pensa que é superior a milhões de pessoas, então também milhões de pessoas são superiores a ele. Por exemplo, ele é cozinheiro, sabe preparar uma feijoada? Ele é alfaiate, sabe fazer um terno? Ele é cantor, sabe cantar, como o Roberto Carlos? Ele é sapateiro, sabe colocar sola num calçado? Ele é músico, sabe tocar violão, piano, como o Tom Jobim?


Depois de ouvir estas palavras, o doutor metido à besta ficou com uma cara imensa de besta, do tamanho do planeta Júpiter...



Fernando Jorge é jornalista, escritor, dicionarista e enciclopedista brasileiro. Autor de várias obras biográficas e históricas que lhe renderam alguns prêmios como o Prêmio Jabuti de 1962. É autor do livro “Eu amo os dois”, lançado pela Editora Novo Século.

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